a arte no trabalho da humanização: encontro com Gisa picosque

"Na vida, ao contrário do xadrez, o jogo continua depois do xeque-mate". Assim define Isaac Asimov, escritor e bioquímico russo, autor de obras de ficção científica como "O Homem Bicentenário e Outras Histórias", "Eu, Robô", "Visões de Robô", "Mãe Terra" e "Caça aos Robôs", entre outras.

Foi com esse tom que a arte-educadora Gisa Picosque, graduada em Artes Cênicas e coautora de "A língua do mundo: poetizar, fluir e conhecer arte" e de diferentes materiais educativos, estimulou uma conversa participativa e bem humorada entre os arte-educadores, pedagogos e psicólogos da Associação Arte Despertar.

Na ocasião, o fio condutor da discussão foi a arte, que será sempre o instrumento de trabalho de profissionais que estimulam a humanização na área da saúde, por meio de atividades arte-educativas que envolvem pacientes (atendidos), acompanhantes e a equipe de profissionais da saúde de hospitais públicos de São Paulo.


  
 

Com a capacidade de mover o indivíduo para o "extra-cotidiano" e retirá-lo de sua rotina hospitalar, rodeada por injeções, exames e demais procedimentos, a arte também permite o compartilhamento de emoções, provocando a experiência estética. Ou seja, os arte-educadores estimulam os sentidos do atendido e isso se dá de forma tão intensa que provoca a possibilidade de vivenciar e perceber o acervo de sentimentos, superando os limites do cotidiano.

De acordo com Gisa, "o arte-educador é a pessoa integradora que faz a ponte e cria um vínculo entre o atendido e a arte, e que toca os sentimentos da mesma forma que se estivesse tocando e acariciando o corpo. Esse é um processo de troca de repertório, isto é, tanto o fazedor de arte como o atendido ofertam e absorvem conhecimentos mútuos".

Vale ressaltar que esse processo não tem começo, meio e fim, pois está em constante movimento, sofrendo metamorfoses, o que exige metodologia, filosofia e experiência. Esses fatores se interligam à medida que a processualidade exige um repertório, que é composto por um acervo de experiências anteriores.

Assim, a base do trabalho dos arte-educadores é a oferta do acervo pessoal, em um sentido mais humano, que é o de oferecer à comunidade. Para melhor entendimento, se recorrermos ao passado, há registros de que os grandes educadores são os mais generosos. Eles compartilharam seus pensamentos, conhecimento e saberes com a humanidade ao publicarem seus livros. Portanto, o objetivo é afetar e intensificar os sentimentos dos atendidos, tornando o trabalho desenvolvido pelos arte-educadores, pedagogos e psicólogos uma experiência nova para o indivíduo que recria tudo aquilo que absorveu.

Mas qual a ressonância que a arte provoca? Em um primeiro momento, ela ressoa e o indivíduo é impactado. Os significados vão surgindo e, de acordo com o repertório pessoal, ela é interpretada. Há um diálogo entre o espaço lírico, emoção e cognição. Esse processo não se dá imediatamente e não há compreensão da arte, mas ele permite a compreensão da técnica e do conhecimento fixado, como nos livros.

Dessa forma, a filosofia proposta pela Arte Despertar é a criação, recriação e interpretação, e o trabalho é de estimulação. A arte é humanizadora e penetra nos indivíduos, propiciando um grau de felicidade que outras ações não conseguiriam. Ela causa um "outramento", ou seja, descobre uma outra pessoa dentro do indivíduo, que ele jamais imaginou que existia . "Humanizar é despertar o melhor de cada pessoa, as potencialidades e habilidades. Os arte-educadores utilizam a arte para provocar ações transformadoras, contribuindo para o fortalecimento dos aspectos humanos de si próprio e do outro", finaliza Gisa.



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